Christophe Simon

                                                         Christophe Simon

O mês de novembro vai ficar tristemente marcado pelo maior desastre ambiental do país, em toda a sua história. A barragem de rejeitos minerais da empresa Samarco, joint-venture da Vale e da anglo-australiana BHP Billiton, que estourou, inundando de lama tóxica toda a região de Mariana, em Minas Gerais, chegou ao Rio Doce e deixou um rastro de destruição humana, social, econômica e ambiental de proporções imensas.

Estima-se que até o momento foram 260 mil pessoas diretamente afetadas, 1.500 produtores rurais, dos quais 90% trabalham em regime de agricultura familiar. Vitimado pelo desastre, o Rio Doce, com 853 quilômetros de extensão espalhados por 222 municípios de Minas Gerais e o Espírito Santo, com uma população de mais de 3 milhões de habitantes que depende fortemente do rio para o abastecimento de água, se transformou em um mar de lama e rejeitos. De acordo com muitos ambientalistas, o rio foi morto.

Gabriela Bilo - Estadão

                                                     Gabriela Bilo – Estadão

Ecossistemas foram afetados e ainda não se sabe com precisão os impactos causados pela tragédia sobre os solos, a vegetação, as águas, a vida animal, com reflexos diretos na subsistência das populações atingidas.  E o ecossistema empreendedor da região? Certamente já está sendo bastante afetado, uma vez que muitos pequenos negócios, ancorados fortemente na economia local, devem estar com as operações paralisadas, as instalações destruídas, o abastecimento de água prejudicado, dentre outros problemas.

Em meio ao caos dos acontecimentos e ao desencontro de informações, questões aos poucos vão sendo reveladas por intermédio das notícias veiculadas na imprensa, trazendo à tona componentes de irresponsabilidade corporativa praticada pela grande empresa, em contradição com as declarações formais de responsabilidade socioambiental disponíveis em seu site. Planos de emergência precários, falta de treinamento das comunidades para casos de desastres, falhas no processo de fiscalização e na renovação de licenças ambientais da barragem de Mariana e em ações de prevenção são peças de um quebra-cabeça que agora, reunidas e analisadas em visão retrospectiva, compõem os possíveis fatores que contribuíram para a ocorrência da tragédia nas proporções que vem tomando.

O desastre de Mariana coloca em cheque o verdadeiro sentido de ética nos negócios, que vai muito além das declarações formais de princípios e valores que as empresas comumente publicam em seus documentos institucionais. A responsabilidade socioambiental corporativa não pode ser dissociada de sua dimensão ética, no modo e nas práticas de uma empresa conduzir suas atividades. Aliás, tem muito mais a ver com as práticas, avaliadas por entidades de terceira parte, e amparadas por legislação e regulamentações adequadas para prevenção de abusos. São as práticas de uma empresa que podem demonstrar à sociedade quão éticos são os seus relacionamentos com os colaboradores, consumidores, acionistas, com as comunidades e populações locais e com a sociedade em geral. Fora disso, sobram apenas o discurso e – infelizmente, no caso do desastre em Mariana – muita lama e destruição.

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