adriano abreu

Dentro de um avião, embarcada para reuniões de trabalho em São Paulo, por volta do meio dia de 13 de agosto, tomei conhecimento dos rumores de um acidente aéreo em Santos e da suspeita de que Eduardo Campos poderia estar nele. Decolamos sem conseguir uma resposta.

Durante todo o voo, com o coração angustiado, foram voltando à memória imagens ainda muito vivas que tenho dele na nossa juventude em Recife. Pude me transportar para a efervescência política da vida estudantil. Lembrei dos amigos comuns, do Dudu – como era chamado na época – sempre sorrindo, vibrante, tendo ao lado a namorada Renata, dos comícios e das idas ao seu comitê de campanha para deputado estadual em Pernambuco.

Escutei de novo o povo cantando nas ruas  “Arraestaí”, transportei-me para a festa pela eleição do avô Miguel Arraes, após um longo exílio. Enfim, fui revivendo muitas e boas memórias, até a ultima vez em que o vi pessoalmente e apertei sua mão, em 30 de julho, quando – de forma brilhante – participou do diálogo da indústria com os candidatos a Presidente da República, na CNI, em Brasilia.

Ao desembarcar em São Paulo, pouco mais de uma hora depois, infelizmente, já não existiam suspeitas. A tragédia havia se confirmado, para grande tristeza da sua família, dos amigos, dos companheiros de jornada política e para milhões de cidadãos brasileiros e, em especial, para o povo de Pernambuco.

Ao darmos ontem o adeus a Eduardo, começamos a acordar lentamente de um pesadelo que nos abateu. Vivemos dias de muita tristeza, sim, mas fomos consolados por Deus, desde o primeiro momento, e fomos inspirados pela força e união demonstradas pela sua família.

Fomos consolados também porque Eduardo viveu intensa e generosamente, “combateu o bom combate”, não se acomodou com a trajetória de sucesso já percorrida como político e gestor público e, principalmente, não se acovardou ao alertar para os desafios e problemas urgentes do país.

Nesses últimos meses, tivemos o privilegio de contar com a sua liderança política como candidato a Presidente da República, dialogando com toda a simplicidade com as pessoas nas ruas, defendendo suas ideias nos debates. Só agora pudemos perceber – porque foi tudo muito breve e intenso – que Eduardo encarnou a própria reinvenção da política. Mostrou que era possível exercê-la como vocação, com alegria e leveza, mas também com coragem, firmeza de ideias, princípios e ousadia.

Agora, ao olharmos para frente, diante de escolhas cruciais para a democracia e para a sociedade brasileiras, sentimos mais do que saudade de tudo que foi construído por Eduardo. Sentimos saudade do futuro que ele acalentava em seus sonhos, em sua mente e em seu coração. Só nos resta persistir – nunca desistir – sem ele, mas com esperança.

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