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Com o cenário macroeconômico favorável, o mercado doméstico “bombando”, e em função das suas limitações de recursos, pode até parecer um contrassenso falar em pequenas empresas atuando no mercado global. Mas não é, em minha opinião.

É bom esclarecer desde já que quando falo em “atuação global” não estou apenas considerando a exportação ou o estabelecimento de operações em bases estrangeiras. Atuar com um enfoque global requer um processo mais amplo e estratégico de internacionalização que se dá de muitas formas, em muitas direções e com velocidades diversas. Algumas pequenas notáveis já nascem globais, é verdade, mas isso é quase uma exceção à regra no contexto brasileiro.

Embora ainda não plenamente superado, a atuação em um mercado globalizado é um dos desafios que considero importante para a maior competitividade das micro e pequenas empresas brasileiras. E para a economia brasileira como um todo, por conseqüência. Por três motivos.

Primeiro, o ambiente doméstico está ficando cada vez mais globalizado. Esta é uma tendência irreversível. Cada vez mais, o mercado global é “aqui em casa” mesmo, na esquina, ao alcance de um click, onde quer que existam as oportunidades e os nichos de mercado que possam ser explorados, quer por empresas nacionais ou estrangeiras. Um exemplo dessa realidade ocorre na indústria brasileira de software, que venho estudando há alguns anos. Atualmente, temos operando aqui no Brasil gigantes globais, como, por exemplo, a indiana Tata, competindo com pequenas, médias e grandes brasileiras do setor.

Segundo, porque ao buscar se preparar para uma atuação internacional, quer seja em busca de fornecedores, parceiros ou clientes internacionais, a pequena empresa obrigatoriamente eleva seu patamar de desempenho, amplia suas redes de relacionamentos e estende suas fronteiras de conhecimento. Em se tratando de um processo planejado – fundamental para o êxito – a internacionalização pressupõe o desenho de novas estratégias, ações, alianças e inovações de processos e produtos. É coisa de gente grande e não dá para improvisar.

Terceiro, saindo da estratégia apenas focada na exploração comercial das commodities, a diversidade cultural e ambiental brasileira traz consigo muitas oportunidades. O Brasil é possuidor de ativos intangíveis valiosos, intensivos em trabalho, criatividade e conhecimento, que podem ser explorados de forma mais “agressiva” no cenário internacional. As pequenas empresas brasileiras, especialmente as dedicadas a segmentos ligados à economia criativa, tais como a música, o cinema, a propaganda, o software, o artesanato, a gastronomia, etc, pelas suas características, podem muito bem serem engajadas nesse movimento. Finalmente, mas não menos importante, estamos tratando de atividades “limpas”, que não degradam o meio ambiente e tem grande potencial de mobilização e envolvimento das comunidades locais, contribuindo para o desenvolvimento sustentável.

Todo esse movimento não terá o impacto necessário apenas com base no ímpeto e voluntarismo das micro e pequenas empresas brasileiras. Precisa, é claro, de todo um aparato institucional – público e privado – bem articulado em torno de políticas de incentivo e fomento.

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