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Afinal, qual é a capacidade de discernimento do “eleitor médio” brasileiro? Até onde vai a tolerância social à corrupção no Brasil? O jornalista Fernando Rodrigues, em 14/09, no UOL Notícias, opina que o mais recente escândalo veiculado pela mídia se trata de um caso “complexo” para o entendimento do eleitor médio: http://uolpolitica.blog.uol.com.br/arch2010-09-12_2010-09-18.html

O jornalista conclui que é necessário um escândalo de repercussão altíssima (daqueles com fotos de malas, cuecas, meias e vídeos de dinheiro, por exemplo) e uma economia que não esteja crescendo cerca de 7% ao ano para que a opinião do eleitor seja mudada. Estando o jornalista correto em sua análise, qual a repercussão desse quadro para a democracia brasileira?  

Essas reflexões me remeteram a dois livros do sociólogo Alberto Carlos Almeida: “A Cabeça do Brasileiro” e “A Cabeça do Eleitor Brasileiro”. No primeiro, Almeida apresenta os resultados de um estudo nacional que esquadrinha os valores, a mentalidade e a visão de mundo que regem o comportamento do brasileiro. Examina a sua percepção sobre temas que vão da ética à sexualidade, passando pela economia e política, dentre outros. O estudo revelou que o famoso e socialmente aceito “jeitinho brasileiro” pode ser visto como uma zona cinzenta, o meio caminho, uma concepção ética tolerante – que diminui à medida que a escolaridade se eleva – entre o favor e a corrupção. No segundo, faz uma análise de 150 eleições no país, desde o nível presidencial até o municipal.  

Em ambos os estudos, a conclusão – bastante incômoda e inconveniente – é praticamente a mesma. Prevalece uma postura utilitária, imediatista e de busca de beneficiamento pessoal, tanto para o voto quanto para as questões que regem a nossa vida cotidiana. Segundo ele, a corrupção, que envolve o mau uso do recurso público que vem do contribuinte, ainda está muito “longe” na percepção do eleitor. Existem “problemas” mais críticos, mais básicos que afetam cada grupo de pessoas. São esses problemas que tem orientado, na visão de Almeida, as escolhas pragmáticas dos eleitores brasileiros. Ética e corrupção não estariam entre as questões que se encontram no topo do ranking de critérios das escolhas eleitorais.

O fato de estarem sendo veiculadas notícias, nesses últimos dias, que levantam grave suspeição sobre autoridades públicas federais coloca em evidência – novamente – o discernimento e a tolerância do eleitor brasileiro. Não seria a hora de o eleitor usar sua capacidade de discernimento de forma mais rigorosa antes de decidir o voto nestas eleições?  Ou prevalecerão a tolerância e o imediatismo?

Cada vez mais me convenço sobre a importância de um segundo turno nas eleições 2010, para termos a chance de aprofundar o debate sobre esses e outros aspectos de nossas relações sociais que certamente influem no funcionamento da democracia brasileira. Acessei um vídeo simples e didático sobre o assunto: http://www.youtube.com/watch?v=ix-WoObc4yw&feature=player_embedded

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