guilherme leme

O mês de agosto, que acabou de terminar, seria um mês de comemorações especiais. Afinal, não é qualquer hora que a gente faz 50 anos… O dia dos pais seria outra data significativa a ser comemorada quase que simultaneamente ao meu aniversário, como foi nos últimos anos, porque cairia na véspera este ano. Nem uma coisa, nem outra.

No lugar das comemorações, uma perda irreparável se abateu sobre nós. No último dia dos pais, 08 de agosto de 2010, Paulo Augusto Sperança, pai de meus dois filhos mais velhos, com quem fui casada, foi assassinado brutalmente no Recife. Ele tinha 53 anos, era odontólogo, mestre e doutor pela Unicamp/SP – aluno laureado em toda a sua história acadêmica – professor e pesquisador brilhante das universidades federal e estadual de Pernambuco e da Faculdade ASCES, em Caruaru. Paulo era um homem íntegro e de caráter, que amava seus dois filhos, a família e a carreira que abraçou com tanta dedicação.

A polícia de Pernambuco desvendou o crime e divulgou em 30 de agosto passado que a mandante é a ex-mulher – ANA TEREZINHA ZANFORLIN – e os executores são o amante (do primeiro atentado que sofreu em dezembro de 2009) e empregados de sua clínica ilegal. Até a polícia disse que está chocada com tamanha frieza e os detalhes sórdidos do crime. O caso pode ser conhecido em seus detalhes em várias matérias publicadas na Internet.

Apesar de toda essa tragédia, este post não é para destilar amargura e sentimentos negativos. É para expressar gratidão, mesmo em meio à dor. Gratidão a Deus, em primeiro lugar, porque tem nos consolado e guiado, concedendo a fé e a esperança necessárias para seguirmos adiante. Aos queridos familiares e amigos que têm demonstrado, das mais diversas formas e meios, solidariedade. À Igreja Presbiteriana de Brasília, na pessoa de seus pastores Valter Moura e Dalzir Silva, que tem nos sustentado em amor cristão e com orações. À imprensa de Pernambuco, que atuou de forma respeitosa e profissional diante do momento delicado, acompanhando de perto as investigações. À Polícia Civil de Pernambuco, na pessoa da delegada da 4° Delegacia de Homicídios e Proteção a Pessoa (DHPP) de Pernambuco, Dra. Sylvana Léllis, profissional competente, dedicada, que demonstrou – nos mínimos detalhes do processo que levou ao desfecho do caso que presidiu – o amor e respeito às pessoas e à vida humana. A ela e à sua equipe, nossa mais sincera gratidão. Gratidão também pelos meus filhos, que Deus me presenteou, e que vêm me dando lições de amor, de força, de caráter e de princípios. Pelo marido, companheiro leal e amigo de todas as horas. Com amor e generosidade, esteve ao nosso lado, nos apoiando em tudo.

Este post é também para expressar esperança de que a justiça venha a ser cumprida rigorosamente e que nenhum dos culpados deixe de ser punido. É preciso mais respeito à vida humana. A violência – em suas mais distintas formas e motivos – não pode jamais ser banalizada. Como lembrou meu filho: “lutamos para que a justiça seja feita, não permitindo que um crime tão imundo, covarde e cruel como o que foi cometido com o nosso pai fique impune, se transformando em apenas mais uma estatística nos jornais.”

Talvez seja necessária – como sugeriu um leitor ao comentar matéria publicada em site sobre o caso – ser criada uma lei, a “Lei Paulo Sperança”, para homens que são vítimas da violência de mulheres – sim, as mulheres também cometem violência – a exemplo da Lei Maria da Penha. Este ainda é um assunto cheio de tabus e sobre o qual só agora, nessas circunstâncias, passei a refletir.

Buscando elaborar a perda traumática que sofreu sob uma perspectiva mais positiva, minha filha externou o desejo dela neste momento, citando a inspiradora frase da escritora Adélia Prado: “Uso todos os meus cacos para fazer um vitral”. Que as partes que se destroçaram em nós – laços, sentimentos, memórias – possam ser (re) unidas, com a ajuda de Deus, e transformadas em um vitral. Que tudo isso que passamos nos faça amar mais, perdoar mais e estar mais atentos ao bem-estar do próximo. Que assim seja, para meus filhos e para todos nós.

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