marco antonio cavalcanti

Conversei hoje com uma amiga chinesa que veio ao Rio para uma conferência acadêmica internacional, em sua primeira viagem ao Brasil. Pesquisadora esclarecida, com grande bagagem e vivência internacional, seu relato sobre as primeiras impressões que teve de nosso país destacou, aos olhos dela, além do cenário natural deslumbrante do Rio, é claro, as nossas desigualdades sociais, as favelas e a violência. Tudo isso “visto” em um curto espaço de tempo. 

Tentando transmitir informações sobre as mudanças positivas que estão ocorrendo em nosso país, falei um pouco sobre os avanços que obtivemos com a redução da pobreza nos últimos 10 anos, com a saída de mais de 20 milhões de brasileiros da miséria e a consequente redução das desigualdades sociais e econômicas.

Mesmo assim, após a nossa conversa, veio à minha memória a imagem do protesto recente, na praia de Copacabana, da Ong Rio de Paz (http://www.riodepaz.org.br/home.html) contra as condições de moradia nas favelas do Rio, cuja foto está neste post

Fiquei refletindo ainda sobre o poder “inebriante” dos indicadores socioeconômicos positivos (nada contra eles!) e sobre como vamos gradualmente amortecendo a nossa capacidade de nos indignar com o que está ao nosso redor, como muito bem alertou o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Pior ainda, se essa miséria não estiver muito próxima aos nossos olhos…

O Distrito Federal, por exemplo, detem a maior renda per capita (R$40.000,00) e a oitava economia do país (PIB de R$100 bi) mas, por outro lado, é a quarta capital brasileira com maior desigualdade. Prevalecem indicadores socioeconomicos que revelam enormes disparidades entre as Regiões Administrativas (RAs), mostrando claramente o tamanho dos desafios que ainda existem para a redução das desigualdades, raiz de tantos problemas graves que acometem a população do Distrito Federal.

Querer mudar essa realidade deve ser o foco da ação política, refundada em princípios éticos e na defesa da igualdade de acesso aos bens e serviços coletivos. Promover o desenvolvimento sustentável – não apenas o crescimento econômico – pressupõe, necessariamente, encarar de frente esses problemas que ainda persistem, a fim de garantir maior justiça social.

Inspirada nessa reflexão, revisitei textos do Betinho (1935-1997) e encontrei este, bastante atual, sobre a necessidade de atacar a miséria, de promover mudança radicais, de virar o Brasil pelo avesso. De fato, ainda não viramos o Brasil pelo avesso, muito menos o Distrito Federal.

A alma da fome é política

Herbert de Souza

A fome é exclusão. Da terra, da renda, do emprego, do salário, da educação, da economia, da vida e da cidadania. Quando uma pessoa chega a não ter o que comer é porque tudo o mais já lhe foi negado. É uma espécie de cerceamento moderno ou de exílio. A morte em vida. O exílio da Terra. Mas a alma da fome é política.

A fome é a realidade, o efeito e o sintoma. O ponto de partida e de chegada. A síntese, a ponta do novelo a partir da qual tudo se explica e se resolve. Porque não é episódica, nem superficial, revela fundo o quanto uma pessoa está sendo excluída de tudo e com que frieza seu drama é ignorado pelos outros. […] Mas a fome é também o atestado de miséria absoluta e o grito de alarme que sinaliza o desastre social de um país, que mostra a cara do Brasil.

Como a miséria é a síntese e o nó de um processo, desvendar e atacar a miséria é também um modo de refazer radicalmente o Brasil. É pegar o Brasil pelo umbigo. A negação radical da miséria é um postulado de mudança radical de todas as relações e processos que geram a miséria. É uma interpelação a tudo e todos, é um passar a limpo a História, a sociedade, o Estado e a economia. É virar o Brasil pelo avesso. No concreto.

É assustador perceber com que naturalidade fomos virando um país de miseráveis, com que tranqüilidade fomos produzindo milhões de indigentes. Acabar com essa naturalidade, recuperar o sentido da indignação diante da degradação humana, reabsolutizar a pessoa como centro e eixo da vida e da ação política é essencial para transformar a luta contra a fome e a miséria num imenso processo de reconstrução do Brasil e de nossa própria dignidade. Por isso é que acabar com a fome não é só dar comida, e acabar com a miséria não é só gerar emprego, mas é reconstruir radicalmente toda sociedade.

Trechos do texto publicado no Jornal do Brasil, em setembro de 1993.

Fonte: http://www.conversascombetinho.org.br/com_a_palavra/index.htm

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