mário fontenelle/arquivo público do distrito federal

Nascida de uma utopia urbanística igualitária, Brasília completa hoje 50 anos. E fazer 50 anos é um marco, quer seja na vida de pessoas, organizações ou cidades…

Brasília não é – definitivamente – um espaço urbano e social comum. Projetada pelo presidente Juscelino Kubitschek, foi concebida para ser o centro irradiador de desenvolvimento, promovendo a sua interiorização. Construída no Planalto Central, em pleno Cerrado, obra de uma arquitetura e engenharia que fugiram ao senso comum, causa espanto e estranheza, para os que nela aportam pela primeira vez, como eu, quando aqui vim morar, vinda do Recife, em 1996. Pessoalmente, a sensação que tive é que estava chegando a um outro planeta…

Seu caráter monumental, traçado próprio, inovação estética, “tribos” muito diversificadas, dinâmica política, cenários diferentes, fisgam os visitantes desavisados – brasileiros e estrangeiros – gerando sentimentos às vezes ambíguos. Lembro-me de uma passagem muito engraçada quando fomos levar dois jovens amigos – um inglês e um australiano – para conhecer a catedral de Brasília, quando estiveram pela primeira vez no Brasil. O inglês, acostumado com as imensas catedrais européias, exclamou espantado, de forma espontânea: “It´s the tiniest cathedral in the world!” (“É a menor catedral do mundo!”).

Aos poucos, Brasília começa a ter até um sotaque, um jeito próprio, que é o amálgama de tantas sons e culturas que aqui aportaram, como os nordestinos, os goianos, os mineiros, os cariocas, que foram chegando em ondas, sendo acolhidos, e foram por aqui ficando, construindo suas histórias e construindo a história deste lugar.

Aos cinquenta anos, nossa capital federal, embora jovem e planejada, revela sinais de cansaço e problemas típicos das grandes metrópoles. Com participação crescente no PIB Nacional, Brasília foi classificada como uma das quatro cidades mais desiguais do país, segundo estudo recente do UN-Habitat, que divulguei aqui no blog. O Lago Paranoá em assoreamento acelerado, congestionamentos constantes no trânsito, com mais de um milhão de veículos trafegando diariamente pelas vias públicas, violência, rede hospitalar e postos de saúde públicos sobrecarregados e sucateados, são alguns dos problemas sérios que afetam a qualidade de vida da população que vive nesta cidade. Basta ler os jornais e assistir com alguma atenção os noticiários televisivos locais. Além disso, por ser o centro nevrálgico político deste país, tornou-se, lamentavelmente, o símbolo nacional do poder descomprometido com a ética, da falta de escrúpulos, da quebra do decoro, da corrupção. E a situação não tem sido diferente, infelizmente, na cena política local…

Para conquistar longevidade, preservando lucidez e dignidade, assim como o seu genial arquiteto, o centenário Oscar Niemeyer, Brasília precisa se renovar, se reinventar, e ao mesmo tempo, buscar inspiração no seu passado de inovação, arrojo, para de novo projetar o seu futuro. Brasília não pode por fim ao sonho que motivou seu surgimento!

space imaging do Brasil geoeye

É preciso que o desenvolvimento de Brasília seja repensado a partir de intervenções urbanísticas sustentáveis e de uma economia de baixo carbono, que propicie inovação e geração de empregos verdes. Esses empregos verdes podem e devem ser fomentados nas micro e pequenas empresas do Distrito Federal, que já somam mais de 87 mil estabelecimentos, empregando mais de 222 mil trabalhadores com carteira assinada, e constituem uma parte muito importante da força empreendedora local. 

É preciso planejar o futuro da Capital Federal em sintonia com a preservação do Cerrado, em grande parte já destruído com a criação de cidades e plantações, o que o torna, segundo especialistas, um bioma muito mais ameaçado do que a própria Amazônia.

Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, Brasília precisa reafirmar seu lugar na sociedade brasileira como espaço de convergências, de concepção de novos sonhos, de igualdade, de justiça e de paz, de construção de um futuro melhor e mais sustentável.  Aliás, o nosso futuro!

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